Todo dia eu acordo e me separo de você. Levanto, guardo os sonhos na gaveta da velha cômoda e troco o pijama. Saio de casa em rotineira condição. Reparo em minha própria sombra no chão e sinto falta de outra, que sempre esteve ali do lado. Como distrair o pensamento de algo que se quer pensar, mas não se deve? Como calar o que sente para não mais sentir? Não sei.
Todo dia eu acordo e me separo de você. Sigo meu caminho e busco outros prazeres. Preencho as lacunas de pensamento com chocolate e televisão. Troco os móveis e outras coisas de lugar para que nada me lembre o que eu não devo lembrar. E, diante do espelho, me convenço de que tudo isso é essencial. Chega uma hora, na vida, que temos que adotar algumas medidas de segurança. É quando percebemos que só nós mesmos podemos nos salvar. Então, fica combinado assim: eu me salvo e você se salva. E a gente se vê qualquer dia. No último instante da história ou, quem sabe, nunca. Só em sonhos. Daqueles que guardamos nas gavetas da velha cômoda.
Todo dia eu acordo e me separo de você. Pago contas, anoto recados, vou ao cinema, pego trânsito e pareço seguir em frente. Me separo de você e de tudo o que não quero mais viver. E encerro qualquer tipo de possibilidade de diálogo que possa fazer voltar atrás. Pois o tempo não se curva; nada acontecerá novamente. Já não somos mais os mesmos. E faz tempo.

